Thursday, July 06, 2006

5º Destroço (ou onde se olha para dentro, com a cara toda e se fuma a solidão do amor)

Eu digo-te. Ou melhor. Digo o teu nome. E olho depois para dentro, com a cara toda
(à tua procura).
Dizer-te o nome não basta. E então procuro-te inteiro, enquanto acendo um cigarro e vejo
(penso)
a solidão do amor. O fumo do cigarro mal aceso
(mal pensado)
é, talvez, o que não me deixa ver-te todo
(quando te procuro cá dentro para além do teu nome, que digo),
exactamente como te veria se pudesse ainda ver-te inteiro. Penso, de cigarro mal aceso entre os meus dedos tão brancos como é tão ténue
(a tua imagem)
o fumo que sobe das minhas mãos e sai da minha boca. E eu digo-te e estranhamente nada acontece que me leve
(a ti)
a pousar o cigarro, a abrir uma janela no fumo e a ver-te aqui todo inteiro. Como eras antes de ser necessário dizer o teu nome para imaginar-te
(tenuamente).
Uso a cara toda. Espreito para dentro. E
(estranhamente)
não sou capaz de recordar-te todo. Sobram só alguns fragmentos
(a minha cara toda enche-se de fumo e os olhos deixam até de ver o teu nome, dentro)
das tuas mãos. As unhas cortadas rente. Os teus olhos oscilando entre o castanho e o verde escuro
(aquele verde que tomam certas árvores quando o verão resvala para o outono).
Talvez os teus braços. Os sinais nas costas
(mapas de que mundos?).
Olho para dentro com a cara toda e não te vejo, mesmo quando repito o teu nome, com muita vontade que te encontres onde penso
(amor, fumando a solidão)
que já te vou perdendo. E repito. O teu nome. E sobram-me apenas sombras. Inúteis e ténues como são as sombras
(meros indícios de que existe sol)
em qualquer estação. Sobram-me ténues imagens inúteis de fumo
(acendo outro cigarro, para te adensar),
que já vou tendo dificuldade em situar. Digo-te
(ou melhor, digo o teu nome),
enquanto fumo à tua procura com a cara toda, a olhar para dentro
(onde estou eu quando te procuro?)
e a encher a minha memória, o teu nome que repito, a tua imagem que já vou perdendo de uma nuvem branca que disfarça as sombras
(que ténue e inutilmente me sobram).

12 Comments:

Blogger Daniela said...

cara elisa,

que blog belissimo, parabens, voltarei aqui certamente.

um abraco,

12/7/06 2:43 AM  
Blogger Elisa said...

Daniela
Muito Obrigada. É bom escrever para que nos leiam.
:-)

12/7/06 4:43 AM  
Blogger José Alexandre Ramos said...

É bom ler quando nos escrevem também.
Apesar de dizeres que não contornas os textos tecnicamente, ficou muito bem conseguida a metáfora do fumo que encobre a imagem. É um nevoeiro interior (atrevo-me a dizer quase geneticamente português) onde perdemos os outros e nos perdemos com aquela esperança de um reencontro. A cor branca (do fumo, do nevoeiro) imprime a solidão e o medo de tudo perder. Bem conseguido tudo isto com as palavras que aparecem de permeio, como se todas fossem sinónimas entre si.

beijo.

13/7/06 4:20 PM  
Blogger Elisa said...

Alexandre
é igualmente (ou mais ainda) bom ler quando nos escrevem. Claro que é. Sobretudo postais das férias que fazemos de nós ou assim uma coisa parecida.
Mas que coisa homem! Não contorno nada, nem controlo nada. Ok ok posso brincar um pouco, uma vez escrito, deslocando certas palavras ou acrescentando outras... pelo gozo ou assim. Tu sabes como é isto.
Beijos

13/7/06 4:55 PM  
Blogger José Alexandre Ramos said...

Está bem... é que isto... sabes, eu vejo nas bancas das livrarias aparecerem coisas intragáveis, estão mesmo mal escritas, e/ou não dizem nada de especial. Eu questiono-me: mas que critérios teve o editor em publicar isto? Por serem coisas fáceis de digerir e haver cada vez mais pessoas a procurá-las? Os editores passaram a ser gestores de vendas e marketing em vez de exercerem o seu papel na exigência da qualidade? Pano para mangas, já se sabe. Então depois leio pessoas, como tu, literariamente cultas, com talento, que afirmam escrever sem rever muito o texto. É claro que isto são crónicas, e a revisão do texto não tem que ser intensa, como quem escreve um romance ou um poema. Mas espanta-me, eu a ver como aquilo foi escrito, a tentar encontrar o método, e zás, lá vem o autor a dizer que não fez mais nada do que ter escrito... Sendo assim, com esse à vontade todo, o que seria se estas pessoas (como tu) se decidissem a escrever coisas grandes, a encontrar uma técnica e aperfeiçoar o estilo: tornar-se-iam bons escritores? Há algo de errado nisto tudo, publicam-se coisas medíocres parecendo-me no caso que o joio cresce em maior quantidade que o trigo.
Já sei que não é tua ambição escrever para publicar (eu também estou nessa condição), estou a falar de um modo geral.
Também não quero dizer que eu não me sinta tentatado a corrigir o que aqui escreves, mas seriam coisas mínimas.
Talvez por serem pessoas realmente cultas a nível literário se sintam constrangidas com qualquer presunção em relação ao que escrevem, não querendo alimentar os caixotes de lixo que as bancas expõem. Mas se fossem estas pessoas que o fizessem em vez dessas outras que cada vez mais crescem como o joio numa seara, penso que não havia necessidade de denominar certas montras e acções de marketing como caixotes de lixo...

Grande comentário!

Beijos

14/7/06 7:11 AM  
Blogger Elisa said...

Pois, Alexandre... há muitas pessoas a escrever bem. Muito bem. E antes houve outras a escrever melhor ainda. E quem sou eu no meio disso? Nada. Reconheço, sem modéstia, que escrevo um pouco melhor do que as margaridas e as fátimas e outras/os que tais... mas isso significa que sou escritora? Que posso publicar o que escrevo por outros meios que não este? Não creio. Nem quero. Porque há quem escreva melhor, muito muito melhor e depois, falta-me tempo e concentração e não tenho folêgo para escrever coisas 'grandes'... basicamente e tu já sabes (até porque pensas mais nisto da escrita que eu, me parece)acontece-me o mesmo que me aconteceu quando escrevia poesia na adolescência, ou seja, assim que comecei a ler os poetas a sério agarrei nos cadernos e mandei tudo para o lixo (literalmente e não para a montra). Como tu (mas com menos talento) gosto de escrever, dá-me prazer. Mas não vejo como escrever de outra forma que não esta. E quando te digo... sai assim, é verdade é assim que sai... olho depois e podia sim, se quisesse, mudar algumas coisas, corrigir outras... mas a pergunta é: para quê?
E ainda que saibamos que as montras das livrarias são hoje em grande parte caixotes de lixo, sabemos igualmente que o lixo é lixo e não o lemos e isso faz toda a diferença acho eu.
Grande comentário, mesmo... e eu pergunto também, como é que com este calor insuportável e com os infravermelhos em estado feroz, consegues tu pensar, homem?
beijos

14/7/06 7:34 AM  
Blogger José Alexandre Ramos said...

assim que comecei a ler os poetas a sério agarrei nos cadernos e mandei tudo para o lixo: ora aqui está! É exactamente por isso que também não quero iludir-me de que escrevo bem (pronto, sem modéstia, eu sei que escrevo bem, mas é pouco isso), e tentar uma publicação. Até podia sair bem, mas e depois? E precisamente quando comecei a ler livros (poesia e os outros estilos) a sério, também deitei uma série de coisas fora. Provavelmente daqui a uns anos, com ainda melhores leituras feitas, e um entendimento mais amadurecido da literatura, eu faça o mesmo com os meus escritos actuais...

Sim, xiça, está um calor do caneco, no limiar do insuportável. Mas ainda não me afectou o pensar, apesar de me ter amolecido o corpo e apetece dormir. Mas dormir onde? Só se for na banheira, dentro de água (pois, não tenho piscina, que chatice...:D )

14/7/06 8:53 AM  
Blogger Elisa said...

Hum... espero que não deites fora os teus escritos actuais... bom, pelo menos os que eu conheço não são merecedores de ser atirados ao lixo.
Para mim o calor está realmente insuportável... com a minha tensão baixa e os miolos feitos em papa, já nem penso...

14/7/06 9:05 AM  
Anonymous Júlio de Freitas said...

Elisa,
A veredade é que fiquei sem jeito...Adorei o seu blog!
Parabens!

3/9/06 3:57 PM  
Anonymous Júlio de Freitas said...

Elisa, eis um poema para ti...Mesmo que seja em espanhol, mas é meu e é para ti:

Hoy es uno de esos días
en los que el abrigo de un cigarrillo
de tu sonrisa y tu imagen
grabadas en mi mente
y de un café tardío
(con sabor a gusto por tu cuerpo)
sólo son inútiles e inéditas recetas
para mantener la calma en un día como éste
tan lleno de tu ausencia.

3/9/06 4:22 PM  
Blogger Elisa said...

Júlio
Muito obrigada. Não precisa de ficar sem jeito, creio. São só palavras.
Um beijinho

3/9/06 4:45 PM  
Blogger Elisa said...

Júlio
Belíssimo poema. Muito Obrigada por ser seu e ser para mim.

3/9/06 5:15 PM  

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