Tuesday, June 13, 2006

3º Regresso (ou de como tudo desapareceu. Aqui dentro. Por causa de uma pergunta que veio não se sabe de onde)

Parece que foi naquele dia. Que tudo começou a morrer. Aqui dentro. As conversas percorrem, por vezes, caminhos estreitos. Estradas sem saída. Ou então. Carreiros a pique. Ruas de macadame. Caminhos com muito pó

(nas entrelinhas e nas margens).

E de repente deixa de haver estrada para andar.

Foi naquele dia. Parece. Quando a conversa começou a entrar num beco de onde não regressaria. Não se sabe de onde me veio a pergunta. Não se sabe de onde lhe surgiu, a ele, a resposta. Mas foi no estreito caminho da resposta que as coisas iniciaram o seu desaparecimento. Aqui dentro

(as palavras que se dizem, as que se vão dizer, as que nunca se dirão. Os gestos que se fazem, os que farão e os que jamais serão feitos. Tudo se mistura de formas inesperadas).

A pergunta, que veio não se sabe de onde, chegou assim, inesperada e misturada com outras que ainda se desconheciam

(as outras mulheres com quem andaste eram assim como eu?)

A resposta que anunciou o fim da estrada e do caminhar, não veio logo a seguir. Fez-se esperar um bocadinho. Como se faz esperar o desaparecimento, antes de o ser

(assim como tu, como? Queres saber se eram mais ou menos bonitas?)

Não. Não era isso. A beleza é irrelevante para o amor. Ou para aquilo que, por vezes, parece mesmo o amor. Mas pode ser só o encontro de duas solidões desamparadas. Ou encontro de quem procura. Ou a procura de quem encontra. Só.
Portanto, não. Não era isso

(não. Não é isso. Se eram assim... se gostavam assim das mesmas coisas?)

Ele pousou a mão no queixo. Fazendo uma pausa, antes da evidência

(nunca tive ninguém como tu. Adoro-te, sabias?)

Eu julgava saber. E levei o polegar à boca, mordendo a ponta devagarinho. Ensaiei um trejeito de pessoa pequenina. Mas deve ter parecido um esgar, dada a minha falta de jeito para as expressões interessantes

(sim, eu também te adoro, mas não é isso. Porque é que gostas de mim? O que é que eu tenho que elas não tivessem?)

Desta vez não passou a mão pelo queixo. Deitou os ombros para trás e abanou a cabeça. Tiques de quando se põe nervoso. Ainda os deve ter, apesar de tanto tempo ter passado sobre o amor, ou sobre aquilo que se parecia com o amor

(Mas ao que vens tu agora? Porque é que gosto de ti?... ora, porque é que gosto de ti?! Porque...)

Não era isso. Também não era isso que a pergunta (vinda de onde não se sabe) procurava

(Porque calhou. Sabemos que é porque calhou encontrarmo-nos. É sempre assim. Mas elas, as outras com quem andaste antes de mim, gostavam das mesmas coisas que eu? Destas de que tu também gostas?)

Pareceu-me ficar um pouco impaciente. Os homens ficam impacientes diante destas perguntas das mulheres. Especialmente destas. Das que anunciam o fim de uma estrada qualquer. Que foi percorrida até ali. E em que, dali em diante, não se pode mais caminhar.

(Que interessa do que é que elas gostavam ou não gostavam, agora? Já não as amo. Já não me amam. Agora amo-te. E...)

E depois? Não disse. Pensei. Agora amas-me e então? Porque não suportas que te faça estas perguntas que vêm não se sabe de onde. Nem para quê.

(está bem, mas alguma vez andaste com uma pessoa que não tivesse os mesmo interesses, sei lá... culturais...ou assim... que tu? Quer dizer, uma pessoa muito diferente de ti?)

Olhou-me como se eu estivesse perturbada. Talvez estivesse. Mas não me pareceu. A mim. Pelo menos a mim não me pareci perturbada

(claro que sim. Com certeza que já andei com pessoas muito diferentes de mim. Pessoas que não tinham nada a ver comigo nesse aspecto)

Foi exactamente aqui que a estrada se encheu de um pó muito fino. Que me impediu de ver o que se seguia. Ou seja. O caminho a estreitar-se. A saída a encolher. Parece-me agora que foi exactamente aqui que tudo começou a desaparecer.

(E como é isso possível? Gostares de alguém que não tem os mesmos interesses e as mesmas preocupações que tu ou que eu, neste caso? Que te atraiu nessa gente?)

Não sei por que razão. Tive a certeza que todas as coisas se diluiram. Se desfizeram. Se desconstruíram. À minha frente apenas um estreito beco. Um muro ao fundo

(gostei delas por outras razões.)

(Quais?)

(Outras, sei lá... mas porque é que estás com estas coisas agora?)

(Diz-me... que outras razões?)

(Não sei... eram bonitas...)

(E eu não sou, é isso?)

(És, claro que és. Eu acho que és linda, bolas!)

(Não sou nada, mas pronto. E mais?)

(Por favor... mais?)

(Sim, sei lá... gostavam de ler? De cinema? Eram de esquerda?...)

(Sei lá se gostavam de ler... e de cinema? Sei lá, já não me lembro... e se eram de esquerda? Que tem isso a ver com...?)

(Como é que não te lembras? O que é que elas liam?)

(Não sei, como é que queres que me lembre?)

(A última, antes de mim, ao menos... nem dessa te lembras?)

(Ah essa... essa não gostava do que tu gostas, ou eu... nunca íamos ao cinema, nem a concertos, nem...)

(e o que é que ela lia?)

(Acho que nunca a vi ler um livro)

(não? Como é possível que tu, precisamente tu, tenhas andado tantos meses com uma tipa que não gostava de ler?...)

(Mas ela gostava de ler.)

(Gostava? Mas se ainda agora disseste...)

(lia imenso, até)

(o quê?)

(a Hola.)

(a Hola?! Como é que pudeste andar com uma gaja que lia a Hola? Porra!)

Parece que foi naquele instante. Que tudo desapareceu. Aqui dentro. Os caminhos. A lógica. A saída. Fui-me embora. Nem olhei para ele. Deixei-o ficar. Ainda falámos depois, outro dia qualquer, contra o muro ao fundo do beco. Mas

raios me partam se eu

(se justamente eu)

havia de querer um homem que foi capaz de andar, numa estrada qualquer, com alguém que lia a Hola!

15 Comments:

Blogger BlahBlahBlah said...

Hum. Pior que "querer um homem que foi capaz de andar, numa estrada qualquer, com alguém que lia a Hola!" deve ser ele próprio, o dito cujo, ler "A Bola" :)

14/6/06 9:46 AM  
Blogger Elisa said...

Achas?
A mim não me parece tão mal. Embora o futebol me passe completamente ao lado.

14/6/06 10:13 AM  
Blogger José Alexandre Ramos said...

Sim, concordo com o bla-não-sei-quê. É exactamente o mesmo. Como se pode andar com um gajo que lê a bola? xiça!

A forma suave como o narrador se vai excluindo do diálogo está muito bem. O silêncio entre o fechar e o abrir das aspas também é escrever.

Agora vou exigir mais, sabes disso. No que que te foste meter...

14/6/06 4:05 PM  
Blogger Elisa said...

A blah. Pois, está bem Alexandre. Não se pode. E eu compreendo isso vindo de uma pessoa a quem o futebol passa também completamente ao lado.
Não me fui meter em nada... eu sei que não exiges, porque sabes.
Bjo

14/6/06 8:05 PM  
Blogger vanessa said...

Quando se está com alguém tende-se a perguntar isso, ou, pelo menos, a reflectir sobre isso - porque alguém que está ou esteve com alguém tão diferente de nós pode, passado um tempo - ou em simultâneo - estar ao nosso lado. O pior é quando opta pela outra que não nós, que até pode não ler a Hola mas não é como nós...
não sei se me expliquei bem...é sempre tão complicado...

15/6/06 12:19 PM  
Blogger Elisa said...

Pois. Vanessa. Mas há coisas que nos diminuem. Tipo estarmos com alguém que já esteve com alguém que lia a Hola e sabe-se lá que outras porcarias. Isso desvaloriza-nos? Não sei. Eu tenho reacções muito estranhas às coisas. Às pequeninas sobretudo. Sou tão capaz de entender grandes maldades, mesmo algumas grandes 'traições'... mas essas coisas pequeninas... não sei. Fico a pensar que secalhar devia, eu também ler a Hola. Ou sei lá.

15/6/06 7:26 PM  
Anonymous Ana Filipa Portugal said...

Saltitando de link em link vim parar a este blog! E prometo regressar assim que tiver tempo para o devorar inteiro! Gostei deste texto!
Quanto à Hola… Acho que um bocadinho de futilidade não faz mal a ninguém… ajuda a não nos perdermos nos caminhos intrincados das questões filosóficas! Às vezes devíamos ler a Hola, ou ir ao cabeleireiro mais do que três vezes por ano… apreciar o prazer das banalidades, percebê-lo… para voltarmos a mergulhar sem medo na nossa confusão mental!
Até breve…
Filipa

16/6/06 4:31 AM  
Blogger Elisa said...

Olá Ana
bem vinda pelas estradas da blogosfera. Regressa e devora o que achares por bem devorar-
Eu sou alguém que adora ir ao cabeleireiro. Não nego que folheio estas revistas enquanto me cortam ou secam o cabelo. Folheio-as para fugir à conversa que é, por vezes, pior que o conteúdo das revistas. Assumo o meu lado fútil em imensas coisas. O cabeleireiro, as malas de uma dada marca, os relógios de outra, que colecciono... etc... Isto é só um texto sobre as cadeias. Ou outra coisa qualquer. E as nossas reacções exageradas a coisas, provavelmente, sem a mínima importância.

16/6/06 11:57 AM  
Blogger BlahBlahBlah said...

Elisa, hahaha, adorei saber que lês vorazmente no cabeleireiro só para fugir à conversa. Exactamente como eu. Deve ser uma snobeira qualquer minha mas se há coisa que não suporto é socializar com cabeleireireiras, manicures, pedicures e afins... mesmo que a isso seja obrigada ao entrar-lhes pelo estabelecimento dentro.

Elas inventam a ponta seca, o peeling capilar, a mascara não sei o que, a unha francesa, quadrada ou arredondada e eu vou jurando a mim nmesma que nunca mais lá ponho os pés até encontrar um cabeleireiro igual ao que tinha no Porto onde para alem dos bons dias e o que pretendia não tinha de dizer mais nada até ao bom-dia e obrigada final pós pagamento :)

Adelante. Tens toda a razão, é nos pormenores que nos devemos deter. Os grandes cenários e grandes gestos são triviais; mais tarde, no dia a dia, são esses pormenorzinhos insignificantes que nos mexem com o nervoso miudinho.

17/6/06 6:37 AM  
Blogger Elisa said...

Eu gosto é quando me dizem ? Já pensou em fazer madeixas, louras?'... como se eu tivesse perfil de loura (e, não, não me estoua referir à alegada mas nunca demonstrada burrice das ditas louras)...
E se eu padeço de nervoso 'miudinho'!
Mas já agora eu não leio vorazmente as revistas no cabeleireiro... há alguma coisa para ler? Vejo os bonecos. As louras, os namorados das louras, as morenas e os namorados das morenas, sendo certo que pretendo ler voraz e atentamente ;-)

17/6/06 11:27 AM  
Blogger BlahBlahBlah said...

É. Com o avançar da idade as mulheres ficam todas louras. Madeixas, pois, eu também sou uma resistente a essas cabeleireirices e mantenho o meu cabelo no meu homógeneo castanho.

Mas a vem isto a propósito da Hola, Caras ou quejandos afins que são a metáfora da questão essencial: "seremos nós capazes de nos partilharmos com alguém que já se deu [ou se dá] com pessoas com hábitos e costumes que nos causam uma repulsa visceral"?

18/6/06 6:17 PM  
Blogger Elisa said...

Seremos?
Claro que somos. Não somos?

Eu jamais pintarei o cabelo Blah. A menos que mude muito. Mas mesmo assim, não o pintaria de louro. Não tenho perfil de loura, como já disse.
Tenho o meu cabelo num heterógeneo castanho, cheio de fios de outras cores. Poucos brancos ainda. Um dia, quando tiver mais fios brancos que de outra cor, corto-o curtinho.

18/6/06 8:18 PM  
Blogger BlahBlahBlah said...

Dias depois...

«3º Regresso (ou de como tudo desapareceu. Aqui dentro. Por causa de uma pergunta que veio não se sabe de onde)»... ou de como a leitura de um texto alheio tem o efeito de uma farpa e durante os dias persiste em incomodar-nos os raciocionios. Boa pergunta, Elisa.

21/6/06 6:27 AM  
Blogger Elisa said...

Blah
Não pensei nesse efeito 'farpa' e peço desculpa, então... as farpas são uma coisa lixada.
Consolo-me com o facto de, por vezes, as perguntas me sairem bem feitas.
Bjo

21/6/06 8:00 AM  
Blogger BlahBlahBlah said...

«raciocionios»?! Ó como eu estou! :)

É, as entrelinhas deste texto têm implicitos imensos convites à reflexão. Muito bem feita mesmo.

Olha, bilhete para o frigorifico: por qualquer estranha razão ainda não consegui aceder hoje ao meu mail do yahoo [excepto de manhã, mas ainda não estava lá nenhuma resposta tua]. Tenho um jantar hoje, por isso respondo-te logo, entre o cair da noite e o romper da madrugada :)

21/6/06 8:49 AM  

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