Monday, September 04, 2006

7º Assombro (ou onde encontro um piano nos bolsos mas tenho as mãos (ainda) presas)

Caiu-me um piano nos bolsos, onde tenho as mãos metidas

(como botões cosidos às casas)

e

(silenciosamente)

sinto-o entre a inquietude e a esperança.

Li uma vez que um homem só é feliz quando constrói o seu próprio piano e inquieto-me mais

(onde porei as mãos?)

com o que agora me desembarcou nos bolsos

(serei feliz?).

Tenho um piano nos bolsos e

(ainda)

conservo neles as mãos. Apertadas para fazer lugar, ou não sei. Mas apertadas como dois

(profundíssimos)

nós que não desatam a música que parece estar prometida. E há palavras que rodeiam de esperanças a inquietude. Ditas na única língua em que todas as palavras deviam ser pronunciadas

(a música).

Caiu-me este piano nos bolsos

(a mim que não sei se sou feliz),

um estranho e tão familiar piano e tão novo que

(ainda)

permanece mudo

(entre a inquietude e a esperança)

aguardando que os nós das minhas mãos se desfaçam e aconteça qualquer coisa, cujo único propósito seja acontecer

(nada acontece).

Receio desatar as mãos. Receio a urgência de uma música imparável e por isso conservo os dedos entrelaçados

(as mãos cheias de nós como as linhas de uma vida feita à pressa)

como dias tristes

(cosidos às casas).

Não posso, pois, tirar as mãos dos bolsos nem desfazer os nós que os dedos entrelaçam. E sento-me

(ao longe a água treme)

como quem descansa, na varanda

(com um piano nos bolsos)

e lentamente aguarda o sono dos pássaros.

Não posso tirar o piano dos bolsos, nem deixar que as promessas de música se cumpram. E por isso

(bem cosida à casa)

sento-me inquieta

(a descansar)

na varanda. Como quem ouve o anúncio da noite

(sossegado)

e aguarda

(de mãos presas, ainda, nos bolsos)

que as estrelas

(ou a música)

recomecem.

11 Comments:

Anonymous Júlio de Freitas said...

Como é que sabes que o piano é novo (ou familiar ou estranho) se ainda nao o tiraste do bolso?

4/9/06 8:11 PM  
Blogger Elisa said...

Ora viva
Boa questão a tua... primeiro apeteceu-me responder: 'que é que isso interessa, se me caiu um piano nos bolsos?'... mas na verdade esta coisa do piano, como creio se entende, é apenas uma metáfora. De qualquer modo, é novo e estranho, porque nunca antes acontecido e familiar porque está no meu bolso, mesmo ao pé das minhas mãos.

4/9/06 8:22 PM  
Anonymous Júlio de Freitas said...

Pois é, nao me julgue tao superficial...Entendi que tratava-se de uma metáfora...É só que eu a entrelaçei com uma outra, minha, vivida, e ai fiquei a pensar nos rostros, as pessoas que chegam e vao...e de como às vezes ficamos fechados a re-começar nossa história para muda-la.

4/9/06 8:31 PM  
Anonymous Júlio de Freitas said...

Elisa,
Perdona mi insistencia, no quise hacer una pregunta tonta, pero perdona, sobre todo, que ahora te escriba en español, pues es la lengua que por azar me tocó dominar más, aunque soy portugués. La metáfora del piano -y he ahí el peligro de las metáforas y las sinécdoques, que cada uno las interpreta según su vida- me hace pensar, como aquella hermosa película "Milagro en Milán" que somos prisioneros y carceleros al mismo tiempo de nuestros propios pareceres, y en el dolor no somos capaces de ver que el amor va estar allí, nuevo e intacto siempre, con algo de familar y algo de extraño, y que no siempre está donde creíamos que se encontraba

4/9/06 8:54 PM  
Blogger Elisa said...

Júlio
Não duvidei por um segundo que tivesses compreendido a metáfora, certamente que não. Não me importo que me escrevas em castelhano. Não falo castelhano mas leio frequentemente nessa língua e gosto bastante dela. No segundo comentário acho que dizes tudo e eu estou de acordo com o que é dito. Não acho, porém, as metáforas perigrosas... gosto muito de metáforas e, videntemente espero que quem lê o que escrevo, as interprete a seu modo, sendo que para mim terão (talvez sim ou talvez não) outro significado.
Beijo

5/9/06 11:05 AM  
Blogger maria said...

Voltaste mais inspirada que nunca. E essa de te ter caído um piano nos bolsos não é novidade para ninguém.

Bjinhos.

6/9/06 10:56 AM  
Blogger Elisa said...

Não, maria?
Hum... olha que para mim se trata de uma absoluta novidade. O piano. Os bolsos. Isso tudo. Até a inspiração.
Beijo

6/9/06 11:01 AM  
Blogger maria said...

Modéstia da tua parte, mulher da música. Ou deverei dizer música feita mulher?

Beijo.

6/9/06 5:23 PM  
Blogger Elisa said...

Maria
Muitas pessoas te dirão que não sou modesta. E a verdade é que não sou. Insegura, muitas vezes. Mas não modesta.
A música... quem pode resistir à música? Melhor... quem quererá resistir à música? Os imbecis e deus sabe quanto eu posso ser imbecil...
que confusão, desculpa, maria
Beijo

6/9/06 7:26 PM  
Blogger José Alexandre Ramos said...

esse piano caído nos bolsos (surpresa e apreensão) acontece-nos quando a vida afinal parece ter o tal sentido de que falamos algumas vezes. O importante é aceitá-la como ela se dá, porque não sei bem como é isso de se construir o próprio piano... acho que nem sempre será assim.

28/9/06 6:05 AM  
Blogger Elisa said...

Pois... eu também não sei. Como se constrói o piano. E o resto.
Já tinha saudades dos teus comentários.

28/9/06 8:58 AM  

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