Sunday, April 15, 2007

11º Destroço (ou ver-te e saber que te perdi)

Não sei quanto tempo passou
(sempre fizeste contas muito melhor que eu)
mas parece-me que foi muito. Antes que te pudesse ver outra vez ali naquela luz de Lisboa
(um cliché perfeito, como quase todos o são).
Antes que pudesse perceber que te perdi para sempre, da mesma maneira que fui perdendo pessoas e objectos, mesmo procurando guardá-los em caixas, dentro dos livros, em cantos da memória
(nunca me apeteceu perder nada).
Antes que pudesse perceber porque é que a luz de Lisboa, na tua pele, te tornou
(para sempre)
a única pessoa que
(agora)
eu poderia ter amado com a exacta urgência de quando era adolescente.
Não sei quanto tempo passou
(não é uma coisa importante)
antes que te pudesse ver a esta luz. Uma luz feita de água e girassóis. Irrepetível como todos os gestos perfeitos que fizemos
(antes)
e que se foram esvaziando como um balão esquecido, depois das mãos das crianças.
Tantas vezes quis tocar-te
(nesta tarde)
como antes te tocava as sobrancelhas ou o sítio onde o cabelo começa a rarear-te ou os dedos com que
(me tocavas)
pegas em tudo
(a chávena do café, o cigarro, os papéis),
menos nas minhas mãos abandonadas à sua branca solidão.
E não te toco porque não sei quanto tempo passou e como lhe fizeste as contas. Não aproximo a minha boca da tua, a esta luz de Lisboa, porque não sei contar as pequenas rugas que os teus lábios formam e fico à espera que não regresses ao tempo
(muito, parece-me)
que passaste sem que eu te visse. A desejar que não te levantes da cadeira e te afastes direito ao sol do fim do dia
(longe)
ao encontro de uma vida que eu já não vivo, de um amor que já não será o meu.
Não sei quanto tempo passou
(mas parece-me que foi muito)
antes que pudesse ver-te a esta luz e saber
(com uma assustadora exactidão)
porque escorre de mim ainda este amor
(para sempre)
perdido.

10 Comments:

Blogger Ana Fonseca said...

Genial, como sempre! Adoro a maneira como preenches os silêncios! Beijinhos

16/4/07 9:36 AM  
Blogger Elisa said...

Obrigada Ana -)

16/4/07 11:15 AM  
Anonymous Anonymous said...

não tem que me agradecer ter gostado de mais uma triste tigre teia. apenas gostei.

16/4/07 1:23 PM  
Blogger Elisa said...

Não agradeço... três tristes tigres era um banda de quem eu gostava... uma triste teia sei o que é, pois que a vou tecendo por aqui... uma triste tigre teia... será um jogo de palavras, como o nome da banda, que se repete muito depressa a ver quem se engana... talvez.
Não agradeço.
:-)

16/4/07 1:29 PM  
Blogger isabel mendes ferreira said...

não tenho palavras....


voam para longe quando a leio Elisa....



fico só a reler...

perdida num espaço que sendo este é maior.


um beijo.

18/4/07 1:17 AM  
Blogger Elisa said...

Isabel
:-)

18/4/07 5:41 AM  
Blogger José Alexandre Ramos said...

Parece em contradição com a ana fonseca, mas não é: eu adoro como não preenches os silêncios; cada pausa, bem planeada (...?), concede-nos tempo para recuperar o fôlego. Agora não vou repetir o que tenho dito até aqui... tu já sabes. Beijos.

20/4/07 4:55 AM  
Blogger Elisa said...

nada de planeamento Alexandre... rs... a nossa velha questão. Beijos.

21/4/07 9:58 AM  
Blogger sem-se-ver said...

gosto tanto de qualquer um dos seus três blogs...

24/4/07 4:46 PM  
Blogger Elisa said...

Muito obrigada Sem se ver.
O meu preferido é o bebedeiras de jazz :-). Os outros são só umas coisas que se escrevem. O bebedeiras é um blog bonito, acho eu. Ou pelo menos eu, acho-o muito bonito.
Beijos

24/4/07 6:48 PM  

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